Educar: ensinar a pensar

Cezira Bianchi

Matemática, pedagoga, professora universitária e supervisora escolar da PMSP.

Atualmente  é doutoranda na UNESP de Rio Claro.

E-mail: cezira@globo.com

 

A educação deve conectar-se à inteligência, visto que seu papel, no século XXI, deve ser o de produzir pessoas inteligentes e não indivíduos com muito conhecimento. Estatísticas nos dizem que em meses, nos dias de hoje, o conhecimento humano é duplicado. Deduz-se daí que nosso único guia de sobrevivência, neste mundo de avanço tão rápido é nossa inteligência, e assim precisamos maximizar suas potencialidades. Consideramos aqui o termo “inteligência” como a capacidade de raciocinar, tirar conclusões, analisar, sintetizar, criar coisas novas a partir das já conhecidas.

Não é muito difícil prever para onde caminha a Humanidade. Basta observar o século XX, caracterizado por uma aceleração tecnológica sem precedentes em nossa História. Após as revoluções do ferro, da eletricidade, do petróleo, da química, veio a revolução da genética e a que se apoiou na eletrônica e no desenvolvimento dos computadores. A partir dos anos setenta iniciou-se a integração das telecomunicações com a informática, em um processo que aponta para o surgimento de redes informativas integradas, digitais, com imensa capacidade de veicular dados, fotos, gráficos, palavras, sons, imagens, difundidos em vários meios impressos e audiovisuais.

A integração dos meios de comunicação gera também uma progressiva fusão das atividades intelectuais e industriais do campo da informação. Profissionais das redações dos grandes jornais e agências de informação, artistas, comunidade estudantil, pesquisadores trabalham diante de uma tela de computador. Sociedades como a norte-americana, têm cerca de 50% da população economicamente ativa dedicada a atividades industriais, comerciais, culturais, sociais e informacionais relacionadas com coleta, tratamento e disseminação da informação. Há um aumento da eficiência informacional a cada dia, e se barateiam cada vez mais os custos tecnológicos. Quem não tiver um bom raciocínio, estará perdido.

O uso do computador, do qual nenhum de nós poderá escapar, deve ser acompanhado de um novo tipo de educação, seja no âmbito familiar ou no das escolas ou universidades. É necessária uma educação que aponte para um entendimento humano feito a partir de uma visão ampla, uma visão, se possível, de 360º. Que saber vital é esse, capaz de possibilitar essa visão global da sociedade e que faz com que um homem se sinta interiormente livre por ter respostas às questões da vida? É a cultura, sob suas mais variadas formas.

Não podemos cair no extremo oposto, anterior ao advento dos computadores, de usá-los sem o desenvolvimento de outros aspectos da inteligência humana. É óbvio que os computadores potencializaram e  impulsionaram o desenvolvimento das ciências em geral. Mas é bom lembrar que eles não inovam, não se relacionam, não são flexíveis e não sabem tomar iniciativa diante de situações não pré-determinadas por algoritmos internos. São simples – e rapidíssimos – executores de nossas ordens. Não pensam por si, não têm inteligência, são “burros”.

Há que se tomar um imenso cuidado na educação deste novo milênio, para não se deixar de lado o cultivo de aptidões fundamentais: leitura, reflexão, criatividade, etc... Será tarefa primordial nos estabelecimentos de ensino, onde o computador está cada vez mais presente, proporcionar, ao lado dos conhecimentos técnicos e de informática, uma sólida formação que garanta o exercício integral da inteligência humana em seus vários âmbitos.

A inteligência é a capacidade do indivíduo de aprender rápido e adaptar-se a novas realidades. É, pois, um poder, um produto concreto. A característica mais diferenciada nas pessoas é a modificabilidade cognitiva, que resulta da capacidade do indivíduo para adquirir novos modos de pensamento e sentimento, que estão sujeitas – é o que acredito – à mudança se fornecermos certas condições e oportunidades.

A competência para aprender e adaptar-se não é estática, pode-se ensinar o aluno a aprender e a pensar melhor. É possível modificar a capacidade de aprendizagem.

Piaget falou sobre a relação entre cognição e afeto, pois os dois são lados da mesma moeda, andam sempre juntos. Feuerstein disse ainda que tal moeda é transparente, você pode ver o afeto na cognição e vice-versa. Para Wallon (que divide a inteligência em expressiva, prática e teórica), estudar a inteligência é estudar a maneira como cada um trabalha o todo organismo-meio, numa longa conquista pessoal que parte das manifestações emotivas espontâneas e chega, na idade adulta à escolha entre as múltiplas opções de ação. A essência da inteligência é, pois, a faculdade de adaptar-se, de modificar-se, de aprender.

A formação de professores é um dos problemas mais sérios do nosso sistema de ensino. Apesar de haver consenso entre os educadores de que a formação que o professor tem na faculdade é inadequada, há enorme dificuldade no tocante ao rumo a ser tomado na reorientação dessa formação, devido a falta de referências teóricas advindas de pesquisadores brasileiros em ação.

Isto significa que há pouco investimento dos governos. E assim, a vivência de nossos professores acaba por não gerar referenciais teóricos, que certamente poderiam ser muito melhores que os “importados”. Precisamos mais Marmos (Antônio José Marmo), Nilsons (José Nilson Machado), Newtons (Newton da Costa), Ubiratans (Ubiratan d’Ambrósio). Precisamos conhecer a fundo a forma como o professor brasileiro (e o paulista, e o paulistano) se posiciona frente às variáveis aluno e saber na sua prática pedagógica, que tipo de interferência é necessária na formação de professores. Necessitamos saber que visão têm nossos professores da situação didática.

Os conhecimentos socialmente disponíveis deverão sofrer transformações, antes que sejam ensinados aos alunos. É preciso aprofundar a investigação didática, pois há muito a ser construído ou adaptado. Da escolha do conteúdo que será ministrado à sua adaptação ao sistema educativo, há todo um processo gerador de deformações, organizações, transformações e novos conhecimentos que dão origem ao saber escolar. 

As tecnologias da informação tornam-se cada dia mais rápidas e mais diretas. Isto é mais um desafio à escola: “como incorporar ao seu trabalho, apoiado na oralidade e na escrita, novas formas de comunicar e de conhecer?”. O computador deve ser visto como um recurso didático que traz uma gama enorme de possibilidades ao processo ensino-aprendizagem de Matemática. Não se deve perder de vista que seu caráter lógico-matemático pode ser um bom aliado do desenvolvimento cognitivo das alunos, por permitir distintos ritmos de aprendizagem, por constituir-se fonte de conhecimento e aprendizagem,  uma ferramenta para o desenvolvimento de habilidades, por possibilitar que os educandos possam aprender a partir de seus erros, junto com outras crianças, trocando e comparando.

Em vez de ser uma simples engrenagem da sociedade, a escola  precisa  ser um mecanismo de transformação desta sociedade. A escola está, há muitos anos, dentro de uma redoma que a tem separado da sociedade. Urge, pois, que os educadores  destruam esta redoma e sintam-se parte integrante do tecido social.

Já conhecemos as atitudes que dão certo, hoje em dia: a flexibilidade e a espontaneidade; o problematizar, o contextualizar e o refletir; ter um projeto da escola, com a participação da comunidade; a integração dos professores na busca por novas alternativas; pesquisar e estudar; relacionar os saberes. Tudo isso deve ser feito lembrando que educar significa extrair, tirar do aluno aquilo que ele já traz no seu interior, resgatando o valor imenso que deve ser dado pelo aluno à vida, tanto a sua própria como a de seu semelhante e de outros seres vivos.