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| O trauma cultural causado pela possibilidade
do fim do livro pode bem ser o resultado de uma percepção
equivocada do significado histórico do livro enquanto tecnologia
adaptável e resistente a mudanças, inclusive às gigantescas
mudanças motivadas pela presença do computador.
A possibilidade do fim do livro é traumática porque o livro não pode jamais ser visto apenas como material inerte ou simples objeto de consumo. É antes um objeto simbólico e uma instituição aos quais a cultura pós-Gutenberg confiou a tarefa de armazenar e fazer circular praticamente todo o conhecimento considerado relevante Alem disso, o livro, pelo menos no momento atual, atende a necessidades culturais, pessoais e sociais que não podem ser satisfeitas com o auxílio do computador. É o caso da necessidade da leitura reflexiva, marcada pela cuidadosa atenção e pela postura meditativa, ao invés da leitura meramente voltada para a necessidade de informação. Não há dúvida de que certos livros são melhores quando apresentados no formato eletrônico e em hipertexto, como é o caso das enciclopédias. Mas nem todos os livros são dicionários e enciclopédias. Eco lembra que é preciso diferenciar os livros de consulta dos livros de leitura. O computador tornará certos livros obsoletos, mas outros livros continuarão a ser necessários. Não se trata, portanto, de afirmar apressadamente que uma tecnologia eliminará a outra, mas antes de pensar a coexistência das duas, com funções diferenciadas e especializadas Quando, por exemplo, o Projeto Gutenberg transfere um livro para o meio eletrônico, o que ocorre não é a morte do livro, mas a sua transformação: o livro material, por assim dizer, perde o seu corpo e se transforma em livro virtual e, simultaneamente, perde algumas de suas características (materialidade, localização enquanto objeto em certos espaços físicos), e ganha outras (virtualidade, facilidade de acesso). Para Coover, com o advento do computador e do hipertexto, torna-se possível, pela primeira vez desde Gutenberg, questionar a linearidade do texto impresso, utilizando uma tecnologia alternativa de produção textual: A verdadeira liberdade de escapar da tirania da linha pode ser vista como sendo agora realmente possível, graças ao advento do hipertexto, escrito e lido no computador, no qual a linha na verdade não existe, a não ser que alguém a invente e implante no texto . O argumento de Coover a respeito da tirania da linha abre caminho para uma reflexão não apenas sobre o fim, vale dizer, a morte do livro (que é o argumento explícito do ensaio), mas sobre a sua transformação em livro sem fim. É nesse contexto que é preciso entender a palavra fim também como objetivo: o fim do livro será talvez a sua transformação no livro sem fim, a ser realizada principalmente na dispersão multilinear do hipertexto. O FIM DO LIVRO E O LIVRO SEM FIM - Sérgio Luiz
Prado Bellei
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