Aventuras em Formação:
construção de WebQuests
Maria Manuela Bacelar do Carmo
Vicência Maria Gancho do Maio
Universidade
de Évora
Resumo
As
Aventuras na Web (WebQuests), enquanto propostas estruturadas de
exploração orientada dos recursos da Web, surgem como uma
estratégia privilegiada de integração curricular da
Internet.
Porque
são os professores quem melhor conhece os contextos curriculares,
os interesses e as necessidades educativas dos alunos, é aos professores
que cabe a responsabilidade de criação de propostas de trabalho
baseadas na Web.
Com
esta comunicação pretendemos partilhar alguma experiência
no âmbito da formação na utilização educativa
da Internet, onde os papéis de consumidor e de produtor de informação
convergem na criação de aventuras pensadas para responder
a interesses do contexto profissional dos professores.
1. Introdução
O que é a WEB?
" Milhões de páginas, à procura
de filtragem, de contexto e de organização!" [i].
Como
educadores não podemos deixar de pensar no impacto e no poder motivador
que a Internet nos oferece. Não podemos minimizar a importância
que a Internet e a World Wide Web, em particular, tem no nosso quotidiano.
Já nos vamos habituando a ouvir e a utilizar frequentemente palavras
desta nova gíria que o uso da Internet tem criado. (web site,
navegar, auto-estradas da informação, sala de chat,
HTML,
browser, info-exclusão, etc.) Não nos podemos alhear
da realidade de trabalharmos com alunos que, como é já considerado,
pertencem à "geração ponto com", ou seja para
quem a Internet faz parte do seu ambiente de referências. Usar a
Internet, como Tom March refere ainda, pode não ser "útil
à educação, mas usada com eficácia pode revolucionar
a aprendizagem".
Não
detentores de toda a informação, os professores, enquanto
facilitadores do processo de aprendizagem dos seus alunos, podem criar
ambientes de aprendizagem, configurar actividades baseadas na Web e elaborar
material de apoio a esse processo. Mas utilizar nova tecnologia obriga
a pensar em novas estratégias. Integrar a Internet no processo de
aprendizagem é, pois, um desafio colocado às práticas
dos professores, que os leva, por um lado, a recolher muita informação
e, por outro, a pensar em actividades relacionadas com os objectivos educacionais,
proporcionando igualmente uma utilização positiva e segura
da Internet.
Neste
sentido, tem-se verificado um crescente desenvolvimento nos formatos de
suporte a actividades educativas baseadas na Web[ii].
Como exemplos, refiram-se as listagens de endereços relacionadas
com um tema (Topic hotlist) e os catálogos
com informação sobre diferentes recursos multimedia
(Scrapbook), que permitem orientar os alunos na pesquisa
e a aceder a novos e mais sofisticados recursos que lhes possibilitam novas
formas de criar e de apresentar os seus trabalhos. Outras actividades têm
surgido, pensadas para a Web, contendo já uma criação
de ambientes de aprendizagens significativas e de partilha, pois
não só os alunos têm a possibilidade de a elas aceder,
como qualquer professor de qualquer ponto do globo, com acesso à
Internet, as poderá utilizar ou adaptar. Entre elas salientam-se
a caça ao tesouro (Treasure hunt), em que orientados
por perguntas os alunos pesquisam em determinados sites, podendo culminar
numa grande questão que os leve a sintetizar o que aprenderam; uma
mostra
de diferentes meios sobre um tema (Subject Sampler),
em que são apresentados um conjunto de web sites, de imagens
ou de textos, dando uma visão geral e de diferentes perspectivas
desse tema, permitindo serem analisados na sua relevância,
interesse e actualidade face ao tópico em questão e as WebQuests
(Aventuras na Web), que possibilitam aprofundar e perspectivar
uma aprendizagem activa mais centrada no aluno e que desenvolveremos mais
detalhadamente nesta comunicação.
2. As Aventuras na Web: conceito e fundamentos
Foi
em 1995, ano da grande divulgação da Web, que o conceito
de WebQuest (literalmente uma demanda na Web e generalizada em Português
como Aventura na Web) foi criado por Bernie Dodge, Professor de Tecnologia
Educativa na San Diego State University, iniciando o desenvolvimento
da "estratégia da WebQuest" no âmbito do projecto EDTEC
596 . Tom March tem continuado a incrementar a utilização
educativa da Web, através da reflexão teórica e de
divulgação e publicação de exemplos de diferentes
tipos de actividades.
A
WebQuest
é uma actividade baseada em pesquisa orientada (em que toda ou parte
da informação necessária se encontra na Web),
norteando os alunos na navegação na Internet, que apresenta
a grupos de alunos uma tarefa motivadora e delineando o processo,
de forma a fomentar a aprendizagem cooperativa, a desenvolver o espírito
crítico e a integrar a tecnologia, numa perspectiva construtivista
da aprendizagem.
É
um modelo que utiliza diversas estratégias de apelo à
motivação e à autenticidade dos alunos. Pelas
tarefas autênticas, realistas, que os confrontam com o mundo; pelos
recursos reais que lhes são apresentados (pesquisar em bases
de dados, ter contacto com peritos), pela própria publicação
dos seus resultados .
Eles
vão realizar algo que não se limita a dar significado ao
que fazem na sala de aula, mas que os leva a tomar decisões em resolução
de problemas, a participar em debates/discussões temáticas,
a lidar com aspectos da realidade, a desenvolver competência num
determinado aspecto ou perspectiva de um tópico ao desempenhar um
determinado papel cooperativamente num grupo e tudo isto envolve e motiva
fortemente os alunos.
As
WebQuests
fundamentam-se em estratégias de psicologia cognitiva e construtivista.
Não solicita apenas uma resposta através da recolha de informação,
pelo contrário, ela leva os alunos a transformar a informação
em algo concreto. Sendo estruturada, a WebQuest possibilita
o desenvolvimento de graus mais elevados de cognição e de
pensamento.
Segundo
a perspectiva construtivista, os alunos necessitam de exemplos, com muita
informação e diferentes opiniões sobre um assunto,
possibilitando-lhes a construção de uma compreensão
que possam ligar à sua própria experiência e
conhecimento pessoal e transferir para uma nova situação
em que possam estar perante o mesmo tópico. As WebQuests
são, portanto, uma forma de organizar a multiplicidade de recursos
existentes .
O
desempenho de um determinado papel num grupo gera diferentes interacções,
passando por se sentir um perito num determinado aspecto e confrontar-se
com a situação de verificar que ninguém conhece tudo.
Deste pressuposto decorre a estratégia de necessidade da colaboração
de cada um dos alunos para a execução da tarefa.
2.1. Estrutura e tipos
Para
obter maior eficácia e clareza nas propostas, a WebQuest
é concebida e construída segundo uma estrutura lógica
que contém os seguintes elementos estruturantes:
Introdução
– em que se define o cenário e se fornece alguma informação
de fundo que contextualiza a aventura. É conveniente que desperte
o interesse do aluno, tornando o tópico relevante para as experiências
anteriores e para os objectivos futuros, que seja importante pelas
suas implicações, urgente pela necessidade de arranjar uma
solução num curto espaço de tempo e divertido (pelos
papéis desempenhados, pelo produto a criar,...).
Tarefa
– uma descrição do que o aluno terá de fazer no fim
da aventura. Deverá ser exequível e interessante podendo
assumir diferentes formas como se verá mais adiante.
Processo
– uma descrição curta e clara dos passos necessários
à realização da tarefa podendo incluir a divisão
da tarefa em sub-tarefas, a descrição dos papéis a
serem desempenhados ou perspectivas a serem desenvolvidas.
Recursos
– um conjunto de fontes de informação que devem ser previamente
avaliados, devendo o professor assegurar-se da validade da informação
disponibilizada e da sua adequação ao cumprimento da tarefa
Orientações
– indicações sobre organização de informação,
gestão de tempo e como completar sistemas organizacionais tais como
tabelas cronológicas ou mapas de conceitos. Pode ainda incluir conselhos
sobre a aprendizagem ou sobre relações inter-pessoais.
Avaliação
– referência à maneira como os alunos irão ser avaliados
ou disponibilização de um questionário ou grelha de
avaliação a ser preenchida.
Conclusão
– que finalize a aventura, recorde o que aprenderam e/ou encoraje a aplicação
da experiência a outras situações.
A
tarefa é sem dúvida o aspecto central de uma WebQuest.
A diferentes objectivos de aprendizagem correspondem, naturalmente,
tarefas distintas na sua complexidade e abrangência curricular.
No
intuito de facilitar a formulação da tarefa, Bernie Dodge
propõe uma taxonomia de tarefas com 12 categorias – taskonomy.
Uma análise, ainda que ligeira dessas categorias, permitirá
perceber o grande leque de possibilidades de desenvolvimento
de capacidades e atitudes bem como de aquisição e compreensão
de conhecimentos, através de WebQuests.
Aquelas
categorias, de resto bastante esclarecedoras, constituem uma preciosa ajuda
para o professor:
Reconto
– pretende-se que o aluno reconte o que aprendeu de modo flexível
(na forma e no conteúdo), distinguindo o essencial do acessório.
A apresentação deverá ser feita num formato
diferente da representada nos recursos. Segundo Bernie Dodge, este tipo
de tarefas, embora não traga nada de novo ao processo de ensino-aprendizagem
e ao que frequentemente se faz, pode ser uma maneira de os alunos começarem
a utilizar a Web como recurso, fazendo apelo à capacidade de interpretação
e à criatividade O reconto pode ainda ser usado em combinação
com outro tipo de tarefas.
Compilação
– neste tipo de tarefa torna-se necessário recolher e organizar
a informação proveniente de recursos em múltiplos
formatos, transformando-a, mas em que os alunos definem os seus próprios
critérios de selecção e de organização
da informação.
Mistério
– num ambiente de mistério, recorrendo a um puzzle ou a uma história
de detectives, os alunos são confrontados com uma investigação
em que utilizam a informação recolhida nos diferentes
recursos, na procura de soluções imaginativas.
Jornalísticas
– actuando como jornalistas, os alunos terão de reunir dados e organizá-los
em textos jornalísticos, com rigor e isenção. Neste
tipo de tarefa, os alunos poderão ver-se na situação
de terem de incorporar opiniões divergentes das suas, tomar consciência
dos seus próprios preconceitos e minimizá-los na escrita.
Design
– requer que se crie um produto ou um plano de acção que
satisfaça uma determinada finalidade, sem entrar no campo do ideal
ou do imaginário, mas mantendo a situação tão
real quanto possível, com as dificuldades que na vida do dia-a-dia
existem – restrições de carácter financeiro, legislativo,
...
Produtos
criativos – menos previsíveis do que as tarefas de design, dão
grande ênfase à criatividade e à auto-expressão.
Nelas os alunos assumem o papel de um artista, ... criando um produto dentro
de condicionalismos reais
Consenso
– neste tipo de tarefa, boa para tópicos que geram controvérsia,
estimula-se a capacidade de resolver conflitos podendo, inclusive, expor
os alunos a diferentes sistemas de valores. Espera-se que o aluno
considere diferentes pontos de vista e os articule.
Persuasão
– os alunos deverão desenvolver e apresentar um caso de forma convincente,
baseado no que aprenderam, desenvolvendo, assim, capacidades de persuasão.
Este tipo de tarefa aparece muitas vezes combinada com tarefas de consenso.
Julgamento
– nesta situação, os alunos ordenam ou classificam itens
que lhes são propostos ou tomam uma decisão fundamentada
a partir de algumas opções. Também podem criar, explicar
ou defender um sistema de avaliação
Analíticas
– requerem que os alunos procurem, num determinado tema, semelhanças
e diferenças, bem como as suas implicações, podendo
mesmo estabelecer relações de causa e efeito entre as variáveis
e discutir o seu significado.
Autoconhecimento
– com este tipo de tarefas pretende-se que os alunos adquiram um
maior conhecimento de si próprios, através de uma exploração
orientada dos recursos e em que terão de responder a questões
sobre si próprios.
Científicas
– pretende-se ajudar os alunos a compreender como a ciência funciona,
permitindo-lhes formular a partir dos recursos, verificar hipóteses
a partir de dados recolhidos também a partir dos recursos e descrever
os resultados e as implicações no formato de relatório
científico.
Ainda
no plano da tarefa, o recurso a instrumentos, como a grelha proposta por
Dodge [iii],
para a concepção da tarefa facilitará o trabalho dos
professores nesta fase, porventura a mais difícil de todo o processo
de construção de WebQuests . Assim, perante um certo
tópico, são sugeridos alguns passos que conduzem à
definição da tarefa: levantamento de aspectos susceptíveis
de serem abordados pelo tópico em causa; um brainstorming
de possíveis tarefas; maturação das ideias; tomada
de decisões.
Uma
vez definida a tarefa, é necessário estabelecer o processo
tendo sempre em conta o nível etário dos alunos, sendo conveniente,
no final, aplicar-se uma lista de verificação para averiguar
da sua adequabilidade.
Antes
de dar por encerrada a construção da WebQuest, convém
ainda aplicar uma checklist para a sua avaliação. Muitos
professores colocam ainda o seu endereço electrónico, com
vista a obter feed-back dos seus pares.
Após
a sua publicação, é altura de a aplicar e, em função
dos resultados obtidos durante a actividade, avaliá-la.
2.2 Tipos de WebQuests
As
WebQuests
podem ser a curto prazo ou a longo prazo. As primeiras, com a duração
de 1 a 3 aulas, visam sobretudo a aquisição e a integração
do conhecimento, enquanto as segundas, com a duração de 1
semana a 1 mês, permitem uma análise mais profunda dos conceitos
e encorajam os alunos a desenvolver uma apreciação mais profunda
do assunto, devendo, no final, demonstrar que houve compreensão
através da criação de algo a que outros tenham de
responder on-line ou off-line. Dodge sugere algumas ideias para concretizar
uma WebQuest deste tipo, como por exemplo a criação
de uma base de dados pesquisável, na qual as categorias de cada
campo são criadas pelos alunos, um micromundo representativo de
um certo espaço físico através do qual os alunos podem
navegar ou ainda uma entrevista simulada a uma personagem em que os alunos
têm de elaborar as perguntas e as respostas, depois de terem estudado
a personagem em questão.
3. Metodologia de criação de WebQuest e o Desenvolvimento
profissional dos professores
Os
professores, orientados em geral por imperativos curriculares e pelo desejo
de alargar a aprendizagem dos estudantes, encaram muitas vezes a possibilidade
da integração da web nas suas práticas pedagógicas
com um misto de expectativa e inquietude: acreditam no seu efeito motivacional,
mas receiam que os alunos se dispersem pelo acessório; reconhecem
a existência de um mundo de informação à
distância de um click, mas não querem que os seus alunos
se transformem em "info-glutões"; interrogam-se sobre a validade
científica e pedagógica dessa informação e
lamentam a predominância da língua inglesa nos materiais
disponíveis.
Pelo
que atrás foi dito, o modelo de WebQuest facilita a integração
curricular da Web e a sua aplicação pode traduzir-se
numa experiência de aprendizagem altamente motivadora para os alunos
e para os professores.
Do
ponto de vista do professor, dois planos importa considerar: o plano da
exploração em contexto curricular (aplicação
didáctica) de WebQuests já existentes e o plano da
construção e da publicação de suas próprias
WebQuests.
Em relação ao primeiro aspecto e pela análise já
efectuada importa sublinhar que, na aplicação de
WebQuests,
o professor deverá assegurar a ligação entre este
tipo de actividade e as actividades anteriores e subsequentes. De
acordo com Tom March [iv],
uma WebQuest como experiência isolada ou deslocada do
mapa curricular que cada professor traça na sua prática pedagógica,
perderá algumas das suas potencialidades, nomeadamente do ponto
de vista de estratégias cognitivas que se pretende que os alunos
desenvolvam por esta via.
A
nossa experiência no campo da formação de professores
ao nível da integração curricular da Internet tem
vindo a confirmar-nos que os professores constituem a chave do problema.
São os professores, e as estratégias que eles implementam,
que podem fazer a diferença e não a tecnologia. A eles cabe
a responsabilidade de fazer com que a mudança se opere sobretudo
no plano pedagógico. E a formação, encarada numa perspectiva
de desenvolvimento profissional dos professores, inevitavelmente ligada
aos contextos e às práticas pedagógicas, pode contribuir
para tais mudanças. Como refere Ponte [v]
"a chave da competência profissional é a capacidade de
equacionar e resolver - em tempo oportuno - problemas da prática
profissional (...) é um misto de saber e saber fazer que recebe
contributos de muitas origens".
Construir
uma WebQuest constitui um desafio à autoria e à
imaginação dos professores. Tal como em qualquer outra actividade,
quando se decide construir uma WebQuest, há que elaborar
um plano. Este plano, para ajudar o professor a autoorganizar-se e a tomar
decisões, tem naturalmente alguns referenciais curriculares que
cada professor, ou grupo de professores, elege como cientifica e pedagogicamente
relevantes.
Depois
de se familiarizarem com os recursos disponíveis na Internet e,
se possível, os organizar em categorias, os professores terão
de identificar tópicos/conteúdos curriculares para os quais
há materiais adequados. A escassez de recursos em língua
portuguesa, nomeadamente para certas áreas disciplinares, constitui
uma dificuldade, mas, ao mesmo tempo, transfere maior responsabilidade
para os professores e educadores em geral.
Na
prática e de uma forma geral, podemos então identificar quatro
etapas preparatórias na construção de WebQuests:
Localizar
e familiarizar-se com recursos disponíveis na Web para a
respectiva área disciplinar;
Sistematizar
e organizar (por categorias) o conhecimento que se tem desses recursos;
Identificar
os tópicos do currículo para os quais existem materiais
on-line adequados (ou construir os recursos necessários);
Definir
o layout ou utilizar modelos já existentes para criar uma
WebQuest
disciplinar.
É
sobretudo sobre a vertente de construção que nos debruçaremos
de seguida, fazendo uso da nossa "experiência" recente neste
campo. A criação de WebQuests em contexto de
formação constitui um desafio e tem sido uma das nossas apostas
no quadro da formação de professores realizada no Centro
de Competência Nónio Século XXI da Universidade de
Évora.
Sem
nos determos demasiado em detalhes narrativos, consideramos oportuno
dar conta de um processo que tem vindo a evoluir e no qual podemos integrar
diferentes experiências (aventuras em formação)
situadas, no entanto, em contextos diferenciados.
A. Acção de formação "Redes Electrónicas
de aprendizagem e trabalho colaborativo". A criação de WebQuests
- um resultado não esperado.
Os
professores encararam esta acção com envolvimento e alguma
ousadia o que tornou possível um trabalho colaborativo com
grande investimento individual. A criação de WebQuests
no decurso da acção, não estava de todo prevista no
início. Uma reflexão em torno das potencialidades educativas
da Internet fez emergir um conjunto de ideias de trabalho
e clarificar algumas questões associadas ao papel do professor
e uma atitude de questionamento face às suas práticas.
Neste
quadro, foram partilhadas experiências e analisadas algumas
modalidades de utilização educativa da Internet. No campo
da exploração da Web, enquanto potencial centro de
recursos à escala planetária, as WebQuests foram identificadas
pelos professores em formação como propostas interessantes
de viabilização de uma utilização segura da
Internet no seu espaço curricular. Assim, a necessidade de construirmos
WebQuests
em português, ajustadas à nossa realidade, foi consensualmente
identificada como um enorme desafio para todos os envolvidos. Foram então
avaliadas as possibilidades de concretização.
E
apesar das dificuldades práticas inerentes à quase completa
ausência de experiência em construção de
páginas, os formandos fizeram apelo ao princípio há
anos defendido por António Nóvoa, segundo o qual a
" formação se faz na produção e não
no consumo do saber" e agarraram o desafio e o processo teve uma forte
componente de trabalho colaborativo com recurso às redes electrónicas.
Uma
vez que se optou pela utilização do Microsoft Word
97 (por se tratar de uma ferramenta que os professores já usavam
para outros fins), surgiram algumas dificuldades técnicas
inerentes ao próprio software, sobretudo quando alguns
professores pretendiam ousar um pouco ao nível gráfico e
da estrutura formal. As WebQuests que constituem o produto
visível deste processo de formação estão publicadas
no site do Núcleo UE/Minerva e algumas foram mesmo aplicadas pelos
próprios autores na sua escola.
B. WebGeo: difusão por contágio?
Quase
em simultâneo à acção de formação
contínua de professores atrás referida, decorria na Universidade
de Évora uma outra experiência de formação no
âmbito da cadeira de Didáctica e Tecnologia Educativa para
a Geografia (profissionalização em serviço), na qual
o desafio de construção de WebQuests para a Geografia
foi lançado. O pequeno grupo de cinco formandos respondeu com entusiasmo
e duas WebQuests foram publicadas: "Uma expedição
à Tanzânia" e "À descoberta da União Europeia".
Também neste caso a construção de WebQuests
foi uma opção de percurso, isto é, não estava
explicitamente inscrita no programa, tendo sido essencialmente desenvolvida
sob forma de trabalho autónomo. Tal como na situação
anterior, o software utilizado foi o Microsoft Word 97.
Decorridas
estas duas experiências, e feita a avaliação
de processos e produtos e depois de uma reflexão fundamentada, surgiu
a etapa seguinte: a integração no plano de formação
de acções orientadas explicitamente para a construção
de WebQuests.
C. "Utilização didáctica da Internet: a construção
de WebQuest" – acto I
A
primeira turma desta acção orientada explicitamente para
a criação de WebQuests em contexto de formação
foi enquadrada nas actividades Netd@ys99.
A
participação dos professores na formação pressupunha
desde logo a construção de WebQuests de curto prazo
com vista à sua aplicação nas escolas durante
a semana Netd@ys99. No sentido de contornar algumas eventuais limitações
e dificuldades, toda a WebQuest foi cuidadosamente planeada de acordo
com as soluções técnicas e metodológicas disponíveis.
Neste
caso, optou-se pela utilização do Microsoft FrontPage98,
software
completamente novo para a generalidade dos formandos que, para além
de não possuírem qualquer experiência na construção
de páginas, alguns formandos não dominavam sequer conceitos
e procedimentos de navegação e pesquisa na Web, pelo que
foi necessário algum investimento inicial neste domínio.
Foi de facto uma dificuldade acrescida para as escassas 25 horas previstas
para a duração da acção.
Como
resultado, foram publicadas onze WebQuests em diferentes áreas
disciplinares e que evidenciam alguma evolução (nomeadamente
ao nível das soluções técnicas) em relação
às experiências anteriores.
D. WebQuest em telecolaboração ("Educar (s)em
Rede...")
Não
podemos igualmente de deixar de referir uma outra experiência de
formação por nós vivenciada recentemente e durante
a qual houve lugar para a construção de WebQuests.
Tratou-se de um círculo de estudos para formadores, promovido pelo
DEB – "Educar (s)em Rede..." – e que decorreu em simultâneo em três
pólos geograficamente afastados. O que nos interessa aqui salientar
foi o facto de ter sido desenvolvida uma WebQuest, de forma tele-colaborativa,
por dois professores.
E. "Utilização didáctica da Internet: a construção
de WebQuest" – acto II
A
mesma acção foi replicada no espaço de dois meses,
mas desta vez definiu-se como pré-requisito a experiência
de navegação e pesquisa na Web. Esta acção
ainda está a decorrer, mas o desenvolvimento dos trabalhos é
bastante satisfatório, com tempo para o amadurecimento de conceitos
e aprofundamento de problemas.
4. Nota final
Em
jeito de balanço das experiências vividas e aqui relatadas,
permitimo-nos sublinhar algumas das potencialidades formativas deste processo
e que contribuem para o desenvolvimento profissional dos professores:
Resolução
de problemas – todo o processo é orientado por uma abordagem
de resolução de problemas, facilitando a inclusão
desta estratégia nas suas práticas.
Personalização
dos recursos – construindo WebQuests, o professor organiza recursos
coerentes com o currículo em geral, com o contexto educativo em
que se move e também com o modelo conceptual da sua disciplina.
Pragmatismo
– responder a necessidades e interesses de um segmento curricular específico
(ligação directa às práticas pedagógicas).
Autoria
– para construir uma WebQuest, o professor selecciona (e/ou produz,
adapta, traduz, etc.) recursos, constrói as suas próprias
propostas e publica-as (expõe-se!).
Trabalho
colaborativo – quando a construção da WebQuest
envolve a produção partilhada de conteúdos a publicar
na Web, sobretudo quando se trata de um tópico ou problema
de natureza inter ou transdisciplinar.
Inovação
– todo o percurso (da concepção à publicação),
integrando novos meios e gerindo novos recursos, contribui para o
enriquecimento do repertório metodológico dos professores.
Porque
no processo da integração educativa da Internet na
escola, os professores, enquanto portadores de soluções inovadoras,
são naturalmente a chave do problema, a formação,
como motor de mudança das práticas educativas, deverá
ela própria reflectir esse pressuposto.
5. Referências Bibliográficas
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vol26. [On-line]. Available: http://www.iste.org/L&L/archive/vol26/no7/features/yoder/index.html
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Ponte,
J.P.(1998) Da formação ao desenvolvimento profissional. [On-line].
Available: http://correio.cc.fc.ul.pt/~jponte/cdp.htm
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Outros sites de referência:
http://www.cslaval.qc.ca/prof-inet/index3009.asp
http://edweb.sdsu.edu/webquest/task-design-worksheet.html
Setúbal, 8 de Fevereiro de 2000
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