Aventuras em  Formação:
construção de WebQuests


Maria Manuela Bacelar do Carmo
Vicência Maria Gancho do Maio

Universidade de Évora

Resumo

As Aventuras na Web (WebQuests), enquanto propostas estruturadas de exploração orientada dos recursos da Web, surgem como uma estratégia privilegiada de integração curricular da Internet. 
Porque são os professores quem melhor conhece os contextos curriculares, os interesses e as necessidades educativas dos alunos, é aos professores que cabe a responsabilidade de criação de propostas de trabalho baseadas na Web. 

Com esta comunicação pretendemos partilhar alguma experiência no âmbito da formação na utilização educativa da Internet, onde os papéis de consumidor e de produtor de informação convergem na criação de aventuras pensadas para responder a interesses do contexto profissional dos professores.

1. Introdução 

O que é a WEB?

"Milhões de páginas, à procura de filtragem, de contexto e de organização!"[i].
Como educadores não podemos deixar de pensar no impacto e no poder motivador que a Internet nos oferece. Não podemos minimizar a importância que a Internet e a World Wide Web, em particular, tem no nosso quotidiano. Já nos vamos habituando a ouvir e a utilizar frequentemente palavras desta nova gíria que o uso da Internet tem criado. (web site, navegar, auto-estradas da informação, sala de chat, HTML, browser, info-exclusão, etc.) Não nos podemos alhear da realidade de trabalharmos com alunos que, como é já considerado, pertencem à "geração ponto com", ou seja para quem a Internet faz parte do seu ambiente de referências. Usar a Internet, como Tom March refere ainda, pode não ser "útil à educação, mas usada com eficácia pode revolucionar a aprendizagem". 

Não detentores de toda a informação, os professores, enquanto facilitadores do processo de aprendizagem dos seus alunos, podem criar ambientes de aprendizagem, configurar actividades baseadas na Web e elaborar material de apoio a esse processo. Mas utilizar nova tecnologia obriga  a pensar em novas estratégias. Integrar a Internet no processo de aprendizagem é, pois, um desafio colocado às práticas dos professores, que os leva, por um lado, a recolher muita informação e, por outro, a pensar em actividades relacionadas com os objectivos educacionais, proporcionando igualmente uma utilização positiva e segura da Internet. 

Neste sentido, tem-se verificado um crescente desenvolvimento nos formatos de suporte a  actividades educativas baseadas na Web[ii]. Como exemplos, refiram-se as listagens de endereços relacionadas com um tema (Topic hotlist) e os catálogos com informação sobre diferentes recursos multimedia (Scrapbook), que permitem orientar os alunos na pesquisa e a aceder a novos e mais sofisticados recursos que lhes possibilitam novas formas de criar e de apresentar os seus trabalhos. Outras actividades têm surgido, pensadas para a Web,  contendo já  uma criação de ambientes  de aprendizagens significativas e de partilha, pois não só os alunos têm a possibilidade de a elas aceder, como qualquer professor de qualquer ponto do globo, com acesso à Internet, as poderá utilizar ou adaptar. Entre elas salientam-se a caça ao tesouro (Treasure hunt), em que orientados por perguntas os alunos pesquisam em determinados sites, podendo culminar numa grande questão que os leve a sintetizar o que aprenderam; uma mostra de diferentes meios sobre um tema  (Subject Sampler), em que são apresentados um conjunto de web sites, de imagens ou de textos,  dando uma visão geral e de diferentes perspectivas desse tema, permitindo serem  analisados na  sua relevância, interesse e actualidade face ao tópico em questão e as WebQuests  (Aventuras na Web), que possibilitam aprofundar e perspectivar uma aprendizagem activa mais centrada no aluno e que desenvolveremos mais detalhadamente nesta comunicação.

2. As Aventuras na Web: conceito e fundamentos

Foi em 1995, ano da grande divulgação da Web, que o conceito de WebQuest (literalmente uma demanda na Web e generalizada em Português como Aventura na Web) foi criado por Bernie Dodge, Professor de Tecnologia Educativa na San Diego State University, iniciando o desenvolvimento da "estratégia da WebQuest" no âmbito do projecto EDTEC 596 . Tom March tem continuado a  incrementar a utilização educativa da Web, através da reflexão teórica e de divulgação e publicação de exemplos de diferentes tipos de actividades. 

A WebQuest é uma actividade baseada em pesquisa orientada (em que toda ou parte da informação necessária se encontra na Web), norteando os alunos na navegação na Internet, que apresenta a grupos de alunos uma tarefa  motivadora e delineando o processo, de forma a fomentar a aprendizagem cooperativa, a desenvolver o espírito crítico e a integrar a tecnologia, numa perspectiva construtivista da aprendizagem. 

É um modelo que utiliza diversas estratégias de apelo à  motivação  e à autenticidade dos alunos. Pelas tarefas autênticas, realistas, que os confrontam com o mundo; pelos recursos reais que  lhes são apresentados (pesquisar em bases de dados, ter contacto com peritos), pela própria publicação dos seus resultados . 

Eles vão realizar algo que não se limita a dar significado ao que fazem na sala de aula, mas que os leva a tomar decisões em resolução de problemas, a participar em debates/discussões temáticas, a lidar com aspectos da realidade, a desenvolver competência num determinado aspecto ou perspectiva de um tópico ao desempenhar um determinado papel cooperativamente num grupo e tudo isto envolve e motiva fortemente os alunos. 

As WebQuests fundamentam-se em estratégias de psicologia cognitiva e construtivista. Não solicita apenas uma resposta através da recolha de informação, pelo contrário, ela leva os alunos a transformar a informação em algo concreto. Sendo estruturada, a WebQuest possibilita  o desenvolvimento de graus mais elevados de cognição e de pensamento. 

Segundo a perspectiva construtivista, os alunos necessitam de exemplos, com muita informação e diferentes opiniões sobre um assunto, possibilitando-lhes a construção de uma  compreensão que  possam ligar à sua própria experiência e conhecimento pessoal e transferir para uma nova situação em que possam estar perante o mesmo tópico. As WebQuests são, portanto, uma forma de organizar a multiplicidade de recursos existentes . 

O desempenho de um determinado papel num grupo gera diferentes interacções, passando por se sentir um perito num determinado aspecto e confrontar-se com a situação de verificar que ninguém conhece tudo. Deste pressuposto decorre a estratégia de necessidade da colaboração  de cada um dos alunos para a execução da tarefa. 
 
 

2.1. Estrutura e tipos

Para obter maior  eficácia e clareza nas propostas, a WebQuest  é concebida  e construída segundo uma estrutura lógica que contém os seguintes elementos estruturantes: 

Introdução – em que se define o cenário e se fornece alguma informação de fundo que contextualiza a aventura. É conveniente que desperte o interesse do aluno, tornando o tópico relevante para as experiências anteriores e para os objectivos futuros, que seja  importante pelas suas implicações, urgente pela necessidade de arranjar uma solução num curto espaço de tempo e divertido (pelos papéis desempenhados, pelo produto a criar,...). 

Tarefa – uma descrição do que o aluno terá de fazer no fim da aventura. Deverá ser exequível e interessante podendo assumir diferentes formas como se verá mais adiante. 

Processo – uma descrição curta e clara dos passos necessários à realização da tarefa podendo incluir a divisão da tarefa em sub-tarefas, a descrição dos papéis a serem desempenhados ou perspectivas a serem desenvolvidas. 

Recursos – um conjunto de fontes de informação que devem ser previamente avaliados, devendo o professor assegurar-se da validade da informação disponibilizada e da sua adequação ao cumprimento da tarefa 

Orientações – indicações sobre organização de informação, gestão de tempo e como completar sistemas organizacionais tais como tabelas cronológicas ou mapas de conceitos. Pode ainda incluir conselhos sobre a aprendizagem ou sobre relações inter-pessoais. 

Avaliação – referência à maneira como os alunos irão ser avaliados ou disponibilização de um questionário ou grelha de avaliação a ser preenchida. 

Conclusão – que finalize a aventura, recorde o que aprenderam e/ou encoraje a aplicação da experiência a outras situações.
 

A tarefa é sem dúvida o aspecto central de uma WebQuest. A diferentes objectivos de aprendizagem  correspondem, naturalmente, tarefas  distintas na sua complexidade e abrangência curricular. 

No intuito de facilitar a formulação da tarefa, Bernie Dodge propõe uma taxonomia de tarefas com 12 categorias – taskonomy. Uma análise, ainda que ligeira  dessas categorias, permitirá perceber  o grande leque de possibilidades de desenvolvimento  de capacidades e atitudes bem como de aquisição e compreensão de conhecimentos, através de WebQuests

Aquelas  categorias, de resto bastante esclarecedoras, constituem uma preciosa ajuda para o professor: 

Reconto – pretende-se que o aluno reconte o que aprendeu de modo flexível (na forma e no conteúdo), distinguindo o essencial do acessório. A apresentação deverá ser  feita num formato diferente da representada nos recursos. Segundo Bernie Dodge, este tipo de tarefas, embora não traga nada de novo ao processo de ensino-aprendizagem e ao que frequentemente se faz, pode ser uma maneira de os alunos começarem a utilizar a Web como recurso, fazendo apelo à capacidade de interpretação e à criatividade O reconto pode ainda ser usado em  combinação com outro tipo de tarefas. 

Compilação – neste tipo de tarefa torna-se necessário recolher e organizar a informação proveniente de recursos em múltiplos formatos, transformando-a, mas em que os alunos definem os seus próprios critérios de selecção e de organização da informação. 

Mistério – num ambiente de mistério, recorrendo a um puzzle ou a uma história de detectives, os alunos são confrontados com uma investigação em que utilizam a  informação recolhida nos diferentes recursos, na procura de soluções imaginativas. 

Jornalísticas – actuando como jornalistas, os alunos terão de reunir dados e organizá-los em textos jornalísticos, com rigor e isenção. Neste tipo de tarefa, os alunos poderão ver-se na situação de terem de incorporar opiniões divergentes das suas, tomar consciência dos seus próprios preconceitos e minimizá-los na escrita. 

Design – requer que se crie um produto ou um plano de acção que satisfaça uma determinada finalidade, sem entrar no campo do ideal ou do imaginário, mas mantendo a situação tão real quanto possível, com as dificuldades que na vida do dia-a-dia existem – restrições de carácter financeiro, legislativo, ... 

Produtos criativos – menos previsíveis do que as tarefas de design, dão grande ênfase à criatividade e à auto-expressão. Nelas os alunos assumem o papel de um artista, ... criando um produto dentro de condicionalismos reais 

Consenso – neste tipo de tarefa, boa para tópicos que geram controvérsia, estimula-se a capacidade de resolver conflitos podendo, inclusive, expor os alunos a diferentes sistemas de valores. Espera-se que  o aluno considere diferentes pontos de vista e os articule. 

Persuasão – os alunos deverão desenvolver e apresentar um caso de forma convincente,  baseado no que aprenderam, desenvolvendo, assim, capacidades de persuasão. Este tipo de tarefa aparece muitas vezes combinada com tarefas de consenso. 

Julgamento – nesta situação, os alunos ordenam ou classificam itens que lhes são propostos ou tomam uma decisão fundamentada a partir de algumas opções. Também podem criar, explicar ou defender um sistema de avaliação 

Analíticas – requerem que os alunos procurem, num determinado tema, semelhanças e diferenças, bem como as suas implicações, podendo mesmo estabelecer relações de causa e efeito entre as variáveis e discutir o seu significado. 

Autoconhecimento – com este  tipo de tarefas pretende-se que os alunos adquiram um maior conhecimento de si próprios, através de uma exploração orientada dos recursos e em que terão de responder a questões sobre si próprios. 

Científicas – pretende-se ajudar os alunos a compreender como a ciência funciona, permitindo-lhes formular a partir dos recursos,  verificar hipóteses a partir de dados recolhidos também a partir dos recursos e descrever os resultados e as implicações no formato de relatório científico.
 

Ainda no plano da tarefa, o recurso a instrumentos, como a grelha proposta por Dodge [iii], para a concepção da tarefa facilitará o trabalho dos professores nesta fase, porventura a mais difícil de todo o processo de construção de WebQuests . Assim, perante um certo tópico, são sugeridos alguns passos que conduzem à definição da tarefa: levantamento de aspectos susceptíveis de serem abordados pelo tópico em causa; um brainstorming de possíveis tarefas; maturação das ideias; tomada de decisões. 

Uma vez definida a tarefa, é necessário estabelecer o processo tendo sempre em conta o nível etário dos alunos, sendo conveniente, no final, aplicar-se uma lista de verificação para averiguar da sua adequabilidade. 

Antes de dar por encerrada a construção da WebQuest, convém ainda aplicar uma checklist para a sua avaliação. Muitos professores colocam ainda o seu endereço electrónico, com vista a obter feed-back dos seus pares. 

Após a sua publicação, é altura de a aplicar e, em função dos resultados obtidos durante a actividade, avaliá-la.
 

2.2 Tipos de WebQuests

As WebQuests podem ser a curto prazo ou a longo prazo. As primeiras, com a duração de 1 a 3 aulas, visam sobretudo a aquisição e a integração do conhecimento, enquanto as segundas, com a duração de 1 semana a 1 mês, permitem uma análise mais profunda dos conceitos e encorajam os alunos a desenvolver uma apreciação mais profunda do assunto, devendo, no final, demonstrar que houve compreensão através da criação de algo a que outros tenham de responder on-line ou off-line. Dodge sugere algumas ideias para concretizar uma WebQuest deste tipo, como por exemplo a criação de uma base de dados pesquisável, na qual as categorias de cada campo são criadas pelos alunos, um micromundo representativo de um certo espaço físico através do qual os alunos podem navegar ou ainda uma entrevista simulada a uma personagem em que os alunos têm de elaborar as perguntas e as respostas, depois de terem estudado a personagem em questão. 

3. Metodologia de criação de WebQuest e o Desenvolvimento profissional dos professores

Os  professores, orientados em geral por imperativos curriculares e pelo desejo de alargar a aprendizagem dos estudantes, encaram muitas vezes a possibilidade da integração da web nas suas práticas pedagógicas com um misto de expectativa e inquietude: acreditam no seu efeito motivacional, mas receiam que os alunos se dispersem pelo acessório; reconhecem  a  existência de um mundo de informação à distância de um click, mas não querem que os seus alunos se transformem em "info-glutões"; interrogam-se sobre a validade científica e pedagógica dessa informação e lamentam a  predominância da língua inglesa nos materiais disponíveis.
Pelo que atrás foi dito, o modelo de WebQuest facilita a integração curricular da Web e a sua aplicação pode traduzir-se numa experiência de aprendizagem altamente motivadora para os alunos e para os professores. 

Do ponto de vista do professor, dois planos importa considerar: o plano da exploração em contexto curricular (aplicação didáctica) de WebQuests já existentes e o plano da construção e da publicação de suas próprias WebQuests. Em relação ao primeiro aspecto e pela análise já efectuada importa sublinhar que, na aplicação de WebQuests, o professor deverá assegurar a ligação entre este tipo de actividade e  as actividades anteriores e subsequentes. De acordo com Tom March [iv], uma WebQuest como experiência isolada  ou deslocada do mapa curricular que cada professor traça na sua prática pedagógica, perderá algumas das suas potencialidades, nomeadamente do ponto de vista de estratégias cognitivas que se pretende que os alunos desenvolvam por esta via. 

A nossa experiência no campo da formação de professores ao nível da integração curricular da Internet tem vindo a confirmar-nos que os professores constituem  a chave do problema. São os professores, e as estratégias que eles implementam, que podem fazer a diferença e não a tecnologia. A eles cabe a responsabilidade de fazer com que a mudança se opere sobretudo no plano pedagógico. E a formação, encarada numa perspectiva de desenvolvimento profissional dos professores, inevitavelmente ligada aos contextos e às práticas pedagógicas, pode contribuir para tais mudanças. Como refere Ponte [v] "a chave da competência profissional é a capacidade de equacionar e resolver - em tempo oportuno - problemas da prática profissional (...) é um misto de saber e saber fazer que recebe contributos de muitas origens". 

Construir uma WebQuest  constitui um desafio à autoria e à imaginação dos professores. Tal como em qualquer outra actividade, quando se decide construir uma WebQuest, há que elaborar um plano. Este plano, para ajudar o professor a autoorganizar-se e a tomar decisões, tem naturalmente alguns referenciais curriculares que cada professor, ou grupo de professores, elege como cientifica e pedagogicamente relevantes. 

Depois de se familiarizarem com os recursos disponíveis na Internet e, se possível, os organizar em categorias, os professores terão de identificar tópicos/conteúdos curriculares para os quais há materiais adequados. A escassez de recursos em língua portuguesa, nomeadamente para certas áreas disciplinares, constitui uma dificuldade, mas, ao mesmo tempo, transfere maior responsabilidade para os professores e educadores em geral. 

Na prática e de uma forma geral, podemos então identificar quatro etapas preparatórias na construção de WebQuests:

    Localizar e familiarizar-se com recursos disponíveis na Web para a respectiva área disciplinar; 
    Sistematizar e organizar (por categorias) o conhecimento que se tem desses recursos; 

    Identificar os tópicos  do currículo para os quais existem materiais on-line adequados (ou construir os recursos necessários); 

    Definir o layout ou utilizar modelos já existentes para criar uma WebQuest disciplinar. 

É sobretudo sobre a vertente de construção que nos debruçaremos de seguida, fazendo uso da nossa  "experiência" recente neste campo. A  criação de WebQuests em contexto de formação constitui um desafio e tem sido uma das nossas apostas no quadro da formação de professores realizada no Centro de Competência Nónio Século XXI da Universidade de Évora.
Sem nos determos demasiado em detalhes narrativos, consideramos oportuno  dar conta de um processo que tem vindo a evoluir e no qual podemos integrar diferentes experiências (aventuras em formação) situadas, no entanto, em contextos diferenciados.

 
 

A. Acção de formação "Redes Electrónicas de aprendizagem e trabalho colaborativo". A criação de WebQuests - um resultado não esperado.

Os professores encararam esta acção com envolvimento e alguma ousadia o que tornou possível  um trabalho colaborativo com grande investimento individual. A criação de WebQuests no decurso da acção, não estava de todo prevista no início. Uma reflexão em torno  das potencialidades educativas da Internet  fez emergir  um conjunto de ideias de trabalho e clarificar algumas questões associadas ao  papel do professor e uma atitude de questionamento face às suas práticas.
Neste quadro, foram partilhadas experiências e  analisadas algumas  modalidades de utilização educativa da Internet. No campo da exploração da Web, enquanto potencial centro de recursos à escala planetária, as WebQuests foram identificadas pelos professores em formação como propostas interessantes de viabilização de uma utilização segura da Internet no seu espaço curricular. Assim, a necessidade de construirmos WebQuests em português, ajustadas à nossa realidade, foi consensualmente identificada como um enorme desafio para todos os envolvidos. Foram então avaliadas as possibilidades de concretização. 

E apesar das dificuldades práticas inerentes à quase completa ausência de  experiência em construção de páginas, os formandos fizeram apelo ao princípio há anos defendido por  António Nóvoa, segundo o qual a " formação se faz na produção e não no consumo do saber" e agarraram o desafio e o processo teve uma forte componente de trabalho colaborativo com recurso às redes electrónicas. 

Uma vez que se optou pela utilização  do Microsoft Word 97 (por se tratar de uma ferramenta que os professores já usavam para outros fins), surgiram algumas dificuldades  técnicas  inerentes ao próprio software, sobretudo quando alguns  professores pretendiam ousar um pouco ao nível gráfico e da estrutura formal. As WebQuests que  constituem o produto visível deste processo de formação estão publicadas no site do Núcleo UE/Minerva e algumas foram mesmo aplicadas pelos próprios autores na sua escola. 
 
 

B. WebGeo: difusão por contágio?

Quase em simultâneo à acção de formação contínua de professores atrás referida, decorria na Universidade de Évora uma outra experiência de formação no âmbito da cadeira de Didáctica e Tecnologia Educativa para a Geografia (profissionalização em serviço), na qual o desafio de construção de WebQuests para a Geografia foi lançado. O pequeno grupo de cinco formandos respondeu com entusiasmo e duas WebQuests foram publicadas: "Uma expedição à Tanzânia" e "À descoberta da União Europeia". Também neste caso a construção de WebQuests foi uma opção de percurso, isto é, não estava explicitamente inscrita no programa, tendo sido essencialmente desenvolvida sob forma de trabalho autónomo. Tal como na situação anterior, o software utilizado foi o Microsoft Word 97.
Decorridas estas  duas experiências, e feita a avaliação de processos e produtos e depois de uma reflexão fundamentada, surgiu a etapa seguinte: a integração no plano de formação de acções orientadas explicitamente para a construção de WebQuests.

 
 

C. "Utilização didáctica da Internet: a construção de WebQuest" – acto I

A primeira turma desta acção orientada explicitamente para a criação de WebQuests em contexto de formação foi enquadrada nas actividades Netd@ys99
A participação dos professores na formação pressupunha desde logo a construção de WebQuests de curto prazo com vista à  sua aplicação nas escolas durante a semana Netd@ys99. No sentido de contornar algumas eventuais limitações e dificuldades, toda a WebQuest foi cuidadosamente planeada de acordo com as soluções técnicas e metodológicas disponíveis. 

Neste caso, optou-se pela utilização do Microsoft FrontPage98, software completamente novo para a generalidade dos formandos que, para além de não possuírem qualquer experiência na construção de páginas, alguns formandos não dominavam sequer conceitos e procedimentos de navegação e pesquisa na Web, pelo que  foi necessário algum investimento inicial neste domínio. Foi de facto uma dificuldade acrescida para as escassas 25 horas previstas para a duração da acção. 

Como resultado, foram publicadas onze WebQuests em diferentes áreas disciplinares e que evidenciam alguma evolução (nomeadamente ao nível das soluções técnicas) em relação às experiências anteriores.
 

D. WebQuest em telecolaboração  ("Educar (s)em Rede...")

Não podemos igualmente de deixar de referir uma outra experiência de formação por nós vivenciada  recentemente e durante a qual houve lugar para a construção de WebQuests. Tratou-se de um círculo de estudos para formadores, promovido pelo DEB – "Educar (s)em Rede..." – e que decorreu em simultâneo em três pólos geograficamente afastados. O que nos interessa aqui salientar foi o facto de ter sido desenvolvida uma WebQuest, de forma tele-colaborativa, por dois professores. 

E. "Utilização didáctica da Internet: a construção de WebQuest" – acto II

A mesma acção foi replicada no espaço de dois meses, mas desta vez definiu-se como pré-requisito a experiência de navegação e pesquisa na Web. Esta acção ainda está a decorrer, mas o desenvolvimento dos trabalhos é bastante satisfatório, com tempo para o amadurecimento de conceitos e aprofundamento de problemas. 

4.   Nota final

Em jeito de balanço das experiências vividas e aqui relatadas, permitimo-nos sublinhar algumas das potencialidades formativas deste processo e que contribuem para o desenvolvimento profissional dos professores: 

Resolução de problemas – todo o processo é orientado por uma  abordagem de resolução de problemas, facilitando a inclusão  desta estratégia nas suas práticas. 

Personalização dos recursos – construindo WebQuests, o professor organiza recursos coerentes com o currículo em geral, com o contexto educativo em que se move e também  com o modelo conceptual da sua disciplina. 

Pragmatismo – responder a necessidades e interesses de um segmento curricular específico (ligação directa às práticas pedagógicas). 

Autoria – para construir uma WebQuest, o professor selecciona (e/ou produz, adapta, traduz, etc.) recursos,  constrói as suas próprias propostas  e publica-as (expõe-se!). 

Trabalho colaborativo – quando a construção da WebQuest envolve a produção partilhada de conteúdos a publicar na Web, sobretudo quando se trata de um tópico ou problema de natureza  inter ou transdisciplinar. 

Inovação – todo o percurso (da concepção à publicação), integrando novos meios e gerindo  novos recursos, contribui para o enriquecimento do repertório metodológico dos professores. 
 

Porque no processo  da integração educativa da Internet na escola, os professores, enquanto portadores de soluções inovadoras, são naturalmente a chave do problema, a formação, como motor de mudança das práticas educativas, deverá ela própria reflectir esse pressuposto. 
 

5. Referências Bibliográficas

March, T. (1998). Why WebQuests? An Introduction. [On-line]. Available: http://www.ozline.com/webquests7intro.html [4-2-2000] 

March, T. (1998). The WebQuest Design Process. [On-line]. Available: http://www.ozline.com/webquests/designntro.html [4-2-2000] 

March, T. (1998) WebQuests for learning. [On-line]. Available: http://www.ozline.com/webquests/intro.html [4-2-2000] 

March T. (1998) Readings and Training Materials. [On-line].Available: http://edweb.sdsu.edu/webquest/materials.htm [4-2-2000] 

March T. (1998) Working the web for education. [On-line]. Available:  http://www.ozline.com/learning/theory.html  [4-2-2000] 

Dodge, B. (1997). Some Thoughts About WebQuests. [On-line]. Available: http://edweb.sdsu/courses/edtec596/about_webquests.html. [4-2-2000]. 

Dodge, B. (1999). WebQuest Taskonomy: A Taxonomy of Tasks. [on-line]. Available: http://edweb.sdsu.edu/webquest/taskonomy.html. [4-2-2000]. 

Dodge, B. (1997). Building Blocks of a WebQuest. [On-line]. Available: http://edweb.sdsu.edu/people/bdodge/webquest/buildingblocks.html [4-2-2000]. 

Dodge, B. (1998). A Draft Rubric for Evaluating WebQuests. [On-line]. Available: http://edweb.sdsu.edu/webquest/webquestrubric.html [4-2-2000] 

Yoder, M. (1999). The student WebQuest. Learning & Leading with Tecnology, vol26. [On-line]. Available: http://www.iste.org/L&L/archive/vol26/no7/features/yoder/index.html [4-2-2000] 

Ponte, J.P.(1998) Da formação ao desenvolvimento profissional. [On-line]. Available: http://correio.cc.fc.ul.pt/~jponte/cdp.htm [4-2-2000]
 

Outros sites de referência:

http://www.cslaval.qc.ca/prof-inet/index3009.asp

http://edweb.sdsu.edu/webquest/task-design-worksheet.html
 

Setúbal, 8 de Fevereiro de 2000